Livro relembra o rock dos anos 90, , a era que disse adeus à crítica de massa
2013-12-30 13:55:34

O fantasma de Raul Seixas foi implacável. Assim que o Jornal de Jundiaí publicou uma matéria assinada por um jovem de 19 anos chamado Ricardo Alexandre, numerando as “apropriações indébitas” do roqueiro e pintando nariz de palhaço em seus devotos, Raul deixou o mundo dos mortos para lançar sua maldição. Que o garoto sufocasse em sua própria ignorância, que engolisse como pedra cada calúnia para jamais voltar a fazer polêmica usando seu nome em vão. O exército de Raul foi às ruas de Jundiaí em busca da cabeça de Ricardo. Hostilizaram sua namorada no colégio e o perseguiram na redação do jornal. Por fim, conseguiram que o garoto fosse dispensado da lista de colaboradores do periódico e que Raul voltasse a dormir em paz.

O mesmo fantasma que decepou o crítico polemista criou um dos mais importantes pensadores da geração que nascia ali. “Decidi nunca mais me deixar seduzir pela polêmica fácil nem pela duvidosa fama de enfant terrible”, escreve Ricardo 20 anos depois no livro Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar – 50 Causos e Memórias do Rock Brasileiro (1993-2008), lançado pela Editora Arquipélago. “Mesmo quando fiz críticas altamente negativas, jamais chamei o artista para a briga”, diz ao Estado.

O que sobrou de Ricardo Alexandre naquele 1993 deixou Jundiaí em um trem direto para São Paulo, rumo às redações de jornais e revistas que poderiam precisar de seus serviços. Ao chegar, encontrou o cenário perfeito em um mundo em que a música vinha em CD e a crítica, em papel. A Revista Bizz precisava reforçar seu contingente, já que a independente General havia atraído parte de seus profissionais, e o Estado havia feito seu suplemento para vestibulandos, Cola, virar o antenado Zap!. Em um sinal dos tempos, as três redações, Bizz, General e Estado, aceitaram os serviços de Ricardo e o colocaram em suas frentes de colaboradores.

Pensar os anos 90 hoje talvez seja mais interessante do que pensá-los em 2000, quando muitos o comparavam aos 80 e aos 70 e o tomavam por “década perdida”. O livro de Ricardo, de texto leve, bem costurado e nickhornbiano, ganha profundidade justamente por expor sem preconceitos uma geração que sofreu com uma crítica que não admitia o rock nacional absorvido cada vez mais pelas tecnologias esterilizantes da indústria pop. Antes que a internet dos anos 2000 lançasse a bomba atômica, estilhaçando qualquer estética que pudesse ser usada para unificar uma nova era, os anos 90 proporcionaram os últimos dias do que poderia ser chamado propriamente de geração. A geração 90.

Em uma rápida sequência, é assim que Ricardo resume três décadas de rock and roll: “Nos anos 80, falávamos com amigos de Florianópolis, Recife ou Porto Alegre e todos ouvíamos os mesmos discos, líamos as mesmas revistas, comprávamos os mesmos quadrinhos. Era mais fácil e mais rápido conseguir entender o desenho daquela geração. Nos 90, começa a complicar: poderia ser a 89 FM, a Revista Bizz, o Estado, a MTV, o Folhateen. Começou a haver uma multifacetação. Nos 2000, então, quando a internet entra na receita, enlouquece. E quando a internet 2.0 chega, aí acaba, é demais pra mim.” Ao tirar o saldo, sua conta fica assim: “Os anos 90 foram muito mais ricos como arte do que os anos 80.”

A crítica vive seus dias de luta como um produto do meio. Quanto mais forte e bem definido o rock, maior seu poder de influência. Os anos 70, na era de ouro das grandes bandas, jornalistas viviam as glórias de uma profissão com poder para ser romanceada em filmes como Almost Famous. Com a pulverização dos meios, a crítica também perde força. Assim, Ricardo pode ter vivido a despedida da influência.

Graças ao fantasma de Raul, ele soube dar relevância a seu tempo enquanto o vivia. Quando decidiu malhar um disco dos Raimundos, Lapadas do Povo, de 1997, se municiou de argumentos e colocou em prática uma teoria que acabara de desenvolver. A boa crítica deveria respeitar uma relação de expectativa e decepção. Simples assim: discos bons eram aqueles que atingissem a expectativa do crítico com relação à banda a ser criticada. Os que a ultrapassassem eram os excelentes e os que nem chegassem perto seriam os desprezíveis. Como falar mal é mais difícil do que falar bem, que o profissional se armasse até a medula para defender sua tese.

Ricardo percebeu que dera um tiro no alvo quando seu telefone tocou e, do outro lado da linha, estava Canisso, o baixista dos Raimundos. O fantasma de Raul foi lembrado por milésimos de segundos até que Ricardo percebeu que Canisso não falava com a faca nos dentes. “Ele começou a dizer que a banda teve pouco tempo de estúdio, que havia sido muito difícil gravar o disco nos Estados Unidos. Falei: ‘Caramba, consegui estabelecer um nível de liberdade como crítico e, ao mesmo tempo, de intimidade. O cara entendeu que o que eu escrevi era no nível profissional, estético.’”

O crítico, que lançou a biografia de Wilson Simonal (Nem Vem que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, vencedora do Jabuti de 2010), não faz análise acadêmica. Seu coração bate pelos Raimundos, que ele vê como “talvez a maior banda de rock da história do Brasil”; dá larga vantagem ao Skank em comparação com os anos 80 (“eles são muito melhores do que o RPM”) e é implacável com o Los Hermanos. “É uma banda evidentemente talentosa. O Ventura é um dos últimos grandes álbuns do rock brasileiro. Mas, sem dúvida, a banda foi atropelada por sua própria pretensão e sua própria autoindulgência. Eu fiz a biografia do Wilson Simonal e posso provar cientificamente o que a antipatia gerada por um artista pode causar para o próprio artista. Talvez seria legal mandar esse livro para o Los Hermanos.”

CHEGUEI BEM A TEMPO DE VER O PALCO DESABAR
Autor: Ricardo Alexandre
Editora: Arquipélago (256 págs., R$ 34,90)

MyPassion
Afonso

Jornalista ……

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