O ano não termina sem a tocante reflexão de Kore-eda sobre a paternidade, ‘Pais e Filhos’ Segundo o diretor
2013-12-30 10:45:33

Havia gente em Cannes, em maio, apostando que o júri presidido por Steven Spielberg ia atribuir a Palma de Ouro ao Japão. Era o comentário geral – Like Father Like Son, que estreia nesta sexta-feira como Pais e Filhos, tem a cara de Spielberg. Tanto isso é verdade que Steven adquiriu os direitos de filmagem e vai fazer a versão hollywoodiana do filme de Hirokazu Kore-eda. Mas ele não deu a Palma para o diretor. Ela foi atribuída, pela unanimidade do júri, a Azul É a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche. Pais e Filhos ganhou o prêmio especial do júri, e foi merecido.

Está sendo um final de ano atípico. Na última sexta de 2013, os filmes seguem estreando. São Silvestre, de Lina Chamie, terá um lançamento pequeno, mas é o melhor brasileiro do ano que se encerra. Pais e Filhos só não está na listona dos maiores por um detalhe. Se Kore-eda o terminasse em aberto, com a caminhada de pai e filho – o travelling, o plano-sequência, ambos andando em paralelo, mas não juntos –, o impacto talvez fosse maior. É um belo filme sobre família, para compreender (decifrar?) a paternidade.




Completaram-se neste mês os 110 anos de nascimento e os 50 de morte de Yasujiro Ozu, o mais secreto dos grandes autores japoneses. Quando morreu, em 1963, ele ainda era um segredo bem guardado. De tão oriental, os próprios japoneses achavam que não valia a pena exportar seus filmes, porque os ocidentais não os entenderiam. Há hoje um culto a Ozu. O Lincoln Center, em Nova York, acaba de exibir uma retrospectiva muito interessante – Ozu and His Afterlives, sobre os autores contemporâneos que ele influenciou.
A francesa Claire Denis já disse – “Somos todos filhos de Ozu”. A frase foi repetida por Hirokazu Kore-eda em Cannes, em maio. A crítica comparou Pais e Filhos ao cinema de Ozu, ou pelo menos ao grande tema de Ozu, a família. Kore-eda apresentou a versão restaurada de Tarde de Outono, de 1962, em Cannes Classics. Disse que não se atreveria a se comparar ao mestre e observou que seu cinema, mais que moderno, é ‘eterno’.

Ozu filmou as mudanças na família japonesa tradicional numa era de transição. Sua grande obra, a das obras-primas, situa-se no pós-guerra, após a derrota do Japão e a progressiva influência que os americanos passaram a exercer nos costumes do país. Kore-eda diz compartilhar com Ozu o interesse pela família, mas as condições históricas não são as mesmas. “Muitos de meus filmes, senão todos, tratam da família, mas ela não é o tema. Cada vez a uso para tratar de coisas diferentes. Pais e Filhos se gestou e sedimentou lentamente. Sou filho de um pai ausente, e isso me marcou muito. Recentemente, vivi a experiência de ser pai. Meu filho tem 5 anos, quase a idade dos personagens de Pais e Filhos. Minha mãe morreu e, antes dela, morreu meu avô, que sofria de Alzheimer. Tudo isso fortaleceu meu desejo de falar sobre a paternidade. O que ela representa, afinal?”

Steven Spielberg amou o filme e adquiriu os direitos para fazer a versão norte-americana. Você pode acreditar que Spielberg vai carregar no tom e nos sentimentos. Pais e Filhos narra uma história que se presta ao cinema de lágrimas. Começa com um empresário bem-sucedido, a mulher e o filho. O pai é um tanto distante. Um exame de rotina na escola revela que o garoto não pertence ao grupo sanguíneo dos pais. Não pode ser filho deles. Houve uma troca no hospital, quando o bebê nasceu. Crianças foram trocadas. O caso poderia seguir assim, mas a correção japonesa – os conceitos de honra – levam a algo que parece impensável. À troca das crianças.

Eles não são mais bebês. Percebem o que ocorre. Sofrem com as diferenças – e as duas famílias ficam dilaceradas. O outro pai tem uma oficina, é mais modesto, mas mais presente. “Meu tema é a transformação do pai poderoso. Ele começa o filme frio e distante, mas vai passar por uma mudança. O desafio foi sempre tentar evitar que essa transformação ocorresse banalmente aos olhos do espectador.”

Com quase 3 milhões de espectadores já na época de Cannes, Pais e Filhos virou o maior sucesso de Kore-eda no Japão. Se não sumir de circulação, para não comprometer a futura versão de Spielberg, poderá muito bem se converter no maior êxito internacional do grande diretor.

O filme foi bem em todos os festivais de que participou. Ganhou prêmios (no plural) de público. No Japão, o que contou pontos foi o ator que faz o pai. Masaharu Fukuyama é um astro. Cantor, agrada às mulheres, embora tenha um contingente muito grande de fãs entre crianças e adolescentes de ambos os sexos. “Escolhi-o porque achei que ele se prestava ao que queria fazer. Não estou seguro de que seus fãs tenham aprovado integralmente o filme, e o papel. Ele aparece diferente. Quero crer que a história contribuiu para o sucesso. Os idosos lotaram os cinemas.” Fukuyama, em Cannes, disse que se assustou com o convite de Kore-eda. “Não sou pai, confessei-lhe que não saberia como interpretar o papel. Mas ele me tranquilizou – disse que o filme era sobre um homem que aprende a ser pai, e que eu iria aprender.”

Grandes diretores como o Roman Polanski de O Bebê de Rosemary já abordaram o conflito entre instinto e cultura repressoras nesse campo tão minado que é a família. Kore-eda, até por ser pai, admite que o que mais lhe interessava era discutir os laços de sangue. “Não teria feito esse filme anos atrás. A história não teria me interessado da mesma maneira.” Em filmes como Ninguém Sabe e Andando, o diretor revelou habilidade para dirigir crianças. Ninguém Sabe é sobre crianças abandonadas pela mãe, e que seguem com a vida, como se ela estivesse presente. Andando é sobre irmãos que voltam à casa dos pais para honrar o irmão mais velho, que morreu. Os pais são idosos, a família está perdendo suas raízes. É o filme de Kore-eda mais próximo dos mistérios de Ozu.

Em Cannes, o diretor contou como trabalhou com as crianças. “Em algumas cenas mais importantes, eu lhes explicava o que ocorria, mas nunca os forcei a representar. Houve momentos em que as reações me surpreenderam, de tão imprevistas. Na maior parte do tempo, trabalhei como documentarista, registrando o que eles me ofereciam.” Como as crianças, a luz e a música são decisivas no cinema do autor. Fala-se tanto na influência de Ozu sobre Kore-eda que uma confissão do diretor pode surpreender. “Ozu possuía um estilo com quem ninguém consegue ombrear. Seu depuramento era especial. Foi um metafísico, trabalhando para além do realismo. Tinha uma tendência à abstração. Eu venho do documentário, por isso eu diria que os temas sociais de (Mikio) Naruse são o verdadeiro alimento de meu cinema. Por exemplo, aqui eu queria que outra família fosse diferente, mas era preciso que o pai tivesse muita personalidade. Não deixa de ser um embate entre os dois pais. Um já é, o outro aprende a ser. E eu me divido entre os dois.”

MyPassion
Afonso

Jornalista ……

Comentários.
  • MyPassion

    Adiministrador
    12 de Janeiro, 2013

    Comentario algum de natureza ilegal ou ofensiva será publicado.
    • x0Viqcc2FcIm
      2016-07-02

      Awo did the Right Thing.War is not a Civil Right movement.Obviously the soldiers stole the food.Then who in his right mind feeds a enemy in war ?.But we should let the past be in the past.Today leaders steal from ev3;0oneReyr.that is the new war to be
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